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babileta
06 July 2009 @ 06:34 pm
"- Uma cegueira substitui outra.
- Eu não diria isso. Admiro-os justamente porque são diferentes de nós. Eles gostam do próprio corpo. Nós negligenciamos os nossos. Eles gostam de viajar. Nós ficamos parados. Eles gostam de aventuras. Nós perdemos nosso tempo em reuniões. Gostam de jazz. Nós copiamos sem sucesso o folclore. Eles se ocupam de si mesmos. Nós queríamos salvar o mundo. Como nosso messianismo, quase o destruímos. Com seu egoísmo, talvez eles o salvem."
Milan Kundera. A brincadeira.

 
 
babileta
05 July 2009 @ 12:21 am
Estou há muito tempo tentando escrever. Não sei se não consegui ainda por incapacidade ou por mero cansaço. Dormirei, esperando acordar ou capaz ou descansada.
 
 
ao som de: Bob Dylan - Just like a woman
 
 
babileta
27 June 2009 @ 08:34 pm
Ele não gosta do meu jeito de escrever. Isso é fato. Diz-me que fica sempre tudo desorganizado e não consegue identificar os sentimentos. Ele me disse certa vez que achava meus textos confusos e, que, se eu não conseguia organizar racionalmente meus sentimentos (ah, ele me criticava muito por meu jeito apaixonado), deveria colocar em ordem minhas palavras. Ele chegou a dizer que tinha vontade de guspir no modernismo. Achei tão nojento! Eu tinha vergonha de mostrar o que escrevia para ele, mas cansei-me. Não mostrava, não tinha nenhum entusiasmo. E deixava tudo desorganizado como sempre e às vezes me perguntava se por birra, será que escrevo mal para irritá-lo? Ele sempre lia, não conseguia evitar. Nem sei por quê. Diz carinhosamente que tem apego ao meu conhecimento das regras ortográficas, mas a coesão, ah!, a coesão... Ele se irrita porque pensa que eu não sou coesa, diz que sou deverasmente sucinta, que não sei escrever uma história. Diz que eu conseguiria escrever livros de frases e só. Eu não gosto de livros de frases, pra ser sincera. Mas eu não digo isso para ele, porque seria criar um conflito desnecessário. Ele diz que gosta da minha grafia. Acho que ele se divertiria mais comigo se fizéssemos ditados. Na verdade, eu tô supondo, sonhando, só. Ditados são irritantes. Mas acho que ele pegaria minha grafia para ele e escreveria seus textos. Tive vontade de escrever "seus textos pedantes". Só que eu sei que ele diria que Camões choraria sob seu tapa-olho se me visse escrever a palavra "pedante" para aqueles que amam o lirismo (pedante) de outrora. Eu o decepciono a cada parágrafo. Eu não sei por que escrevo. E é engraçado como isso nos une, porque ele também não precisa disso pra viver, pra ganhar seu salário ou mesmo para ter alguma satisfação. E nos desune. Eu não brigo com ele, sequer leio seus textos. Acho que tenho medo. Sabe, eu penso que ele me trai. Ler alguma coisa que ele escreve seria talvez comprovar que seu amor já não é todo meu. Ele diria que se chama Johannes, que mora na Holanda e que abraçado a uma moça esguia e ruiva caminha entre tulipas. Eu acharia de mau gosto,  mas a imaginaria deitada numa cama holandesa, com cores bonitas e o cabelo longo cobriria o bico de seus seios. E ele ao lado, fumando um cigarro de menta, daqueles que poucos homens fumam, e acho que ele nunca experimentou. Mas o Johannes seria ele e a moça ruiva, quem seria? Eu os imaginaria andando de bicicleta e pensando em Van Gogh, e ele nunca escreveria isso no texto. Ele sequer faria isso, mas sob a máscara de Johannes e acompanhado de uma ruiva, acho que ele faria coisa muito pior. Eu já tive vontade de trai-lo, mas nunca o fiz. Achava uma falta de respeito, porque depois ele se deitaria ao meu lado na cama e me beijaria um beijo quente e eu sentiria dor de cabeça. Mas eu escrevi um texto. A personagem se chamava Marianne e encontrava um homem. A história era estupidíssima, não vale a pena mencionar, mas eu sabia que trair meu marido na literatura era muito melhor do que me deitar com outro homem e entregar-me a ele como Marianne fazia. Porque, no fim das contas, acabei imaginando que a mão forte que segurava Marianne era a mão dele e sorri quando ele me procurou na cama e fez carinho nas minhas costas. Eu sabia que a experiência de Marianne era a minha e não senti peso algum na consciência.
 
 
ao som de: Jacques Brel - Une valse a mille temps
 
 
babileta
13 June 2009 @ 12:20 am
eu tenho vontade de chorar. muita vontade. de sentar e chorar. e quando vi que a calá disse sobre estar chorando pelos corredores, eu quis ocupar um corredor, sentar nele e chorar. eu não entendo o mundo e isso dá um desespero. eu costumo ter crises existenciais doentias, mas elas são mais fáceis de se curar. eu penso "na hora de morrer eu penso nisso" e vou seguindo minha vida. mas, desde terça-feira, eu não consigo lidar mais com minhas opiniões ou com o bombardeamento de notícias. eu não sei bem onde foi que tudo começou, parece que o tempo está se condensando. começaram assembleias estranhas, chatas, greve ou indicativo de greve, bah, é greve de funcionários, nós não temos pq intervir. aí entrou a polícia e as aulas foram pra frente dos policiais e foi bonito e vi meus amigos e era estranho e quase feliz, porque eu pude ver outros cursos, eu vi vida pulsando. até que surgiram bombas e tiros, e aquelas armas do meu tamanho foram usadas e o prédio de que tanto gosto virou esconderijo. mentira, eu nem gosto daquele prédio, mas não titubearia em chamá-lo de segunda casa. eu penso nisso todo o tempo, exceto quando o trabalhodeantiga1.doc se faz mais urgente, e eu quero entender aonde vamos chegar e pq. é que as pessoas sentem um ódio tão grande e, gente, é só brincadeira de política, é só um monte de gente pensando um monte de coisa, não precisa me odiar. eu virei um coletivo e me sinto bem com isso. é estranho, mas parece que é buscar aquilo que talvez tivesse sumido no meio de tantos indivíduos e agora eu digo no metrô "calma, não precisa empurrar" e acho que as pessoas não gostam. acho que elas pensam nejiwerjernjaminhavidapontocompontobr. é como se a vida tivesse um sofrimento a mais, mas um sofrimento válido. porque eu quis ser professora e eu quero entender de educação e eu quero que o mundo não vire as costas pra mim, que eu continue conseguindo conversar com crianças ricas israelitas e crianças pobres do abc paulista e eles me entenderem e a gente rir porque tem medo de fantasma e os adolescentes me respeitarem como uma autoridade embora eu seja dois anos mais velha que eles. talvez eu ouça um pouco de fado agora, pra chorar o que ficou engasgado.
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ao som de: Vai passar - Chico Buarque
 
 
babileta
17 May 2009 @ 07:30 pm
Em "Páginas da Revolução" (According to Pereira), de 1996, editor de jornal escolhe um jovem para escrever textos em homenagem a escritores famosos ainda vivos, para serem publicados assim que falecessem. O filme se passa na Lisboa salazarista e dialoga com a revolução e a contra-revolução. A revolução que se instaurava era de cunho fascista e os contra-revolucionários eram aqueles que se opunham aos regimes que ascendiam na Europa (a se considerar os casos italiano, alemão, espanhol e português, de extrema direita). Ao mesmo tempo em que alguns jovens se apresentam como contra-revolucionários, a imagem de crianças da juventude salazarista mostra a formação que o governo esperava em seu território. Dentre os autores citados no filme, Federíco García Lorca (espanhol morto na Guerra Civil Espanhola em 1936) manifesta em um de seus poemas a impressão geral que me ficou do filme. Chamado Llanto por Ignacio Sanchez Mejias, o poema diz:

"
Pero ya duerme sin fin.
Ya los musgos y la hierba
abren con dedos seguros
la flor de su calavera.
Y su sangre ya viene cantando:
cantando por marismas y praderas,
resbalando por cuernos ateridos,
vacilando sin alma por la niebla,
tropezando con miles de pezuñas
como una larga, oscura, triste lengua,
para formar un charco de agonía
junto al Guadalquivir de las estrellas.
¡Oh blanco muro de España!
¡Oh negro toro de pena!
¡Oh sangre dura de Ignacio!
¡Oh ruiseñor de sus venas!"

(tradução livre:
Mas já dorme sem fim
Já os musgos e a herva
abrem com dedos seguros
a flor de sua caveira.E seu sangue já vem cantando:
cantando por ______ e _____,
resvalando em chifres congelados,
vacilando sem alma pela ____,
tropeçando com milhares de ____
como uma larga, obscura, triste língua,
para formar um charco de agonia
junto ao Guadalquivir das estrelas.
Oh branco muro de Espanha!
Oh negro touro de pena!
Oh duro sangue de Ignacio!
Oh ___ de suas veias!).
 

 
 
babileta
06 May 2009 @ 09:29 am
Quando eu conheci Felipe, ele tentava se matar. Foram tentativas consecutivas, à minha frente. Primeiro, ele caíra, talvez torcendo para que a overdose lhe alcançasse ao invés de causar aquele desconforto por causa da luz do sol, da movimentação a seu redor. Levantou parte do corpo, assustado. Parecia que tinha dormido por três dias e despertou atrasado. Achou perto de si um espeto de churrasco e, com uma titubeação facilmente superada, tentou enfiá-lo em sua jungular. Tiraram de sua mão sua arma, e ele, meio zonzo, perguntou com voz baixa se não podia nem se matar. Deitou novamente e, cutucando ao lado de seu corpo, encontrou um caco de vidro. Sabíamos no que aquilo culminaria, começamos a gritar quando ele começou a roçar (para usar um verbo ameno) o teco de vidro sobre seu pulso. Um homem abaixou-se e tirou da mão de Felipe aquele objeto cortante. Conversou com ele poucos minutos, retirou-se. Não me lembro bem, mas entre uma e outra tentativa, Felipe levantou-se, enconstou-se no poste e tentou provocar o vômito. Não conseguia. Torcíamos para que colocasse os dedos na garganta para que tentasse se livrar daquele desconforto total. Por fim, enfiou a mão na mochila, com artefatos para confecção de pulseiras, e retirou uma tesoura. Começou a esfregar a lâmina, novamente, em seu pulso. Seu braço, tatuado, esticado. Mais uma vez, houve intervenção.

Uma de suas tatuagens era um "foda-se" em letra cursiva. Pediu desculpas quando nos mostrou, escondeu a mão com um riso de criança sapeca. Um pouco mais acima, outra tatuagem mostrava a palavra "liberdade". Ele tocou a palavra com a outra mão; no fundo, era o que ele procurava. Disse que deus era a natureza. Olhei ao nosso redor. Prédiosprédiosprédios. Deus está longe, Felipe? 

Nos últimos dois dias, não foram poucas as vezes que me perguntei se estaria vivo esse rapaz. De 25 anos, fala coerente, embora lenta, de compulsão por seu próprio suicídio. Um biólogo formado que disse que queria ver sua veia pulando, jorrando sangue.
 
 
babileta
03 May 2009 @ 07:47 pm
O menino em meu colo ficava ali, calminho, descansando seus olhos e pensamentos enquanto eu brincava por entre seus fios de cabelo. Seus cachos escorriam pelos meus dedos e eu não cansava de tocar suas madeixas fofas. Meus dedos brincavam sobre seu couro cabeludo, um cafuné carinhoso.
Passou muito tempo até que eu repetisse o hábito, e, quando coloquei minha mão por debaixo dos cachos do cabelo dele, encontrei uma estranha resistência. Em seus cabelos grudaram - era o que eu achava - alguns pequenos galhos, emaranhados com certa primazia. Não demorou muito para que eu entendesse o propósito daquilo, ainda que o menino o desconhecesse. Encontrei aninhado em sua cabeça um belo pássaro azul que chocava um promissor ovo, devorava as caraminholas de sua mente. O pássaro tivera sua cria e ambos só partiram quando eu acariciava insistentemente aquela cabeça em meu colo. As cócegas nos pássaros azuis motivaram sua partida, eram livres, como os pensamentos daquele menino.
 
 
ao som de: Acabou chorare - Novos Baianos
 
 
babileta
02 May 2009 @ 07:32 am
Quando depositei os papéis sobre a prateleira do armário, alguns grãos de poeira levantaram e encontraram minhas vias respiratórias. Puxei o ar com mais força para meu pulmão, mas meus olhos começaram a lacrimejar. Meio desorientada, dirigi-me ao banheiro, abri a torneira, molhei o rosto. Com uma discrição desnecessária para quem está numa casa vazia, bebi um pouco d'água que se acumulava na forma de concha de minhas mãos. Como se fosse algo feio, proibido. Tentei me recuperar o mais rápido possível, sequei meu rosto na própria roupa e saí do banheiro.

Dei uma olhada superficial em toda a casa, queria saber se me esquecia de alguma coisa. Parecia que não. Abri a porta com alguma dificuldade, a chave enroscava quando chegava à metade de suas voltas na fechadura. Saí. O sol no quintal fazia evaporar rapidamente a água da chuva que caíra havia pouco. Coloquei a chave no bolso, com o pensamento de que não voltaria a encontrar vestígios de Marina, não tão explícitos quanto aqueles dentro da casa. A casa ainda era feia aos meus olhos.
 
 
 
 

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