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babileta
02 May 2009 @ 07:32 am
Quando depositei os papéis sobre a prateleira do armário, alguns grãos de poeira levantaram e encontraram minhas vias respiratórias. Puxei o ar com mais força para meu pulmão, mas meus olhos começaram a lacrimejar. Meio desorientada, dirigi-me ao banheiro, abri a torneira, molhei o rosto. Com uma discrição desnecessária para quem está numa casa vazia, bebi um pouco d'água que se acumulava na forma de concha de minhas mãos. Como se fosse algo feio, proibido. Tentei me recuperar o mais rápido possível, sequei meu rosto na própria roupa e saí do banheiro.

Dei uma olhada superficial em toda a casa, queria saber se me esquecia de alguma coisa. Parecia que não. Abri a porta com alguma dificuldade, a chave enroscava quando chegava à metade de suas voltas na fechadura. Saí. O sol no quintal fazia evaporar rapidamente a água da chuva que caíra havia pouco. Coloquei a chave no bolso, com o pensamento de que não voltaria a encontrar vestígios de Marina, não tão explícitos quanto aqueles dentro da casa. A casa ainda era feia aos meus olhos.
 
 
babileta
20 April 2009 @ 12:19 am
Certa vez, Maria de Fátima me ofereceu carona depois do serviço. Aceitei. Agia de acordo com meus interesses, e achava isso muito adequado à realidade. Seu carro tinha um cheiro sujo, de sexo. Enojava-me. Ela disfarçava seu odor hormonal com um perfume barato, mas, confesso, que me agradava. O cheiro do carro, não. Nossa falta de assunto me encaminhava para pensamentos sórdidos. E enquanto eu falava sobre campos em branco a serem preenchidos com letra de forma, imaginava homens em nudezas degradantes. Como eu supunha ser todo o ser pelado, em sua fraqueza mais crua.

Peguei os papéis nas mãos, sentei-me próxima à janela. Uma luz esguia atingia o chão, iluminou as folhas. Uma luz tão anêmica que não evitava o cheiro de mofo daqueles cômodos pequenos. Logo na primeira linha dos escritos desisti de lê-los. Eu entrava numa vida que não era a minha e carregava – ainda que fosse por pouco tempo – uma existência além do peso da minha. Insuportável. Voltei ao armário e guardei as folhas, de modo tão organizado que soaria patológica a descrição.
 
 
babileta
09 April 2009 @ 11:24 pm
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Maria de Fátima era um oposto de mim. Uma mulher que, sem questionamentos, submetia-se a homens, que achava que a vida em casal deveria ser vivida assim. Para ela, ser mulher era aquilo: era mostrar-se femininamente o tempo inteiro. E eu via em seus decotes motivos para as atitudes cavalheirísticas que cabiam a ela, de homens - para mim antiquados- com um cortesia de extremo pedantismo. Eu, enquanto isso, tocava lábios de um rapaz com a paixão de quem beija uma mexerica.

A porta bamba me fez pensar no desespero de Marina. Ela, que devia gritar em silêncio, num momento de fúria deve ter destruído aquela porta. Num momento de fúria, talvez tenha machucado a mão. E não sentiu, e foi chorando. Depois deve ter se arrependido, sentiu vergonha, pensou se os vizinhos viram, pensou no que faria com uma porta torta de armário. Teve remorso e quis pensar em outra coisa. Existiam outros móveis naquele quarto feio, mas na minha cabeça, eu não conseguia criar a imagem deles.
 
 
babileta
31 March 2009 @ 12:06 pm
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Aos quatro anos de idade eu era uma extensão do corpo da minha mãe. Ela, que não trabalhava, carregava-me como se eu fosse um apêndice. Não quero vincular aquelas mãos dadas a essa casa vazia sem órgãos ou tecidos. Gostaria que em um flashback cinematográfico eu entedesse como me tornei esse ser-humano intratável. De solidão afoga-se numa solidão maior ainda, não é o convívio social que me faria largar esse vazio de um corpo sem mobília e sem habitantes.

Da janela do quarto vejo janelas vizinhas. Uma senhora vigia-me secretamente. Ela não sabe que eu a vejo, ou sabe, e estamos ambas numa vigilância mútua. É deus que me espiona enquanto suporto uma das portas bambas do armário; é deus que me assiste mexer em papéis alheios; é um desses deuses que não podem me punir por também ser moralmente falho.
 
 
babileta
04 March 2009 @ 06:12 pm
Muitas coisas envolvem o mesmo acontecimento. Suas consequências, então, são sempre inimagináveis, embora possíveis. Depois da morte de meu irmão, minha mãe parecia ter perdido a razão. Ria sem motivo e de um modo assustador. Meu pai tornou-se melancolia. Eu não suportava o silêncio ao mesmo tempo em que desejava que não fosse interrompido por uma risada sem motivo.

No quarto de Marina estava um armário embutido. Eu o abri, em busca de alguma evidência de sua presença naquela casa. As portas, meio caídas, bambas, escondiam alguns papéis. Daquelas coisas desimportantes para não se levar num momento de fuga e suficientemente interessantes para uma pessoa como eu.
 
 
 
 
babileta
28 February 2009 @ 01:33 am
O que eu sentia por Maria de Fátima não era inveja. Ou era, mas não de seus seios fartos ou do cheiro de rosas do seu perfume. Eu sentia inveja por sua falta de pudor. Maria de Fátima não achava feio andar rebolando e inclinava o corpo discretamente para a frente quando não sentia o efeito do provocante decote. Maria de Fátima era do tipo que não se constrangia na frente de uma construção; enquanto eu me fazia de surda.

Pensei em todas as cartas não recebidas, de todos os segredos espalhados. Segredos desinteressantes, como a carta de amor que repousava em minhas mãos. Segredos escondidos em envelopes, dentro de caixas, de cofres, de gavetas abarrotadas. Segredos colocados no fundo de um armário bambo. Armário. Seria muito feio abrir armários de uma casa vazia?
 
 
babileta
22 February 2009 @ 09:44 am
Marina foi embora sem ter recebido aquela carta. Seria nobre e simpático de minha parte empenhar-me em encontrar a destinatária de tal correspondência, mas não era o meu plano. Quando entrei na casa pela primeira vez, não esperava mudar minha vida em prol de outra pessoa. Ah, Marina foi embora e Francisco jamais saberia.

Eu me sentei no chão, encostei-me na parede. Vi uma pequena rota de formigas passando ao meu lado. Espremi, de modo aleatório, uma à altura de meus olhos. Tirei-a do caminho e assisti à reação das outras. O caos em seus movimentos. Sentiam medo? Dor ou dó da que morrera naquele trajeto? Não durou muito tempo até retornarem ao caminho que traçavam, memória de formiga elas tinham. Quanto tempo vive uma formiga? Não importa, a comunidade não lhas permite estancar.
 
 
ao som de: an aleatorian tango
 
 
babileta
12 February 2009 @ 09:52 pm
Não adianta fugir para não ter problemas. Sei que a vida não tem sido fácil para nenhum de nós dois, mas não consigo me imaginar longe de  ti. Não quero que nos separemos por causa dos últimos acontecimentos. Marina, não me digas que nunca mais poderá me encontrar, não termines o que pode ser a história mais bonita que alguém já viveu.
Marina, Marina! Quando me lembro das vezes em que te segurei em meus braços, das noites que amanheciam sem que sentissemos o pesar do tempo. Tu não sabes como me pesam esses dias que passo sem ti. Eles se arrastam e me preenchem de uma velhice que se precipita. Minha pressão sanguínea oscila: por vezes, aumenta, fico vermelho, ruborizo de uma vergonha tímida, olho-me no espelho e sei que tenho do que me envergonhar; outras vezes, diminui, desacelera, meu sangue parece desejar mudar de direção. Sangue meu, eu peço, não me traga mais mudanças.
Por quê, meu amor, eu tenho que sofrer desse modo? Angustia-me pensar que não sentes metade da falta que eu sinto de ti.
Peço-te para que rasgue esse papel depois de lê-lo. Queime-o, destrua-o, exploda-o. Marina, não fujas, não sumas. Encontra-me terça-feira onde combinamos, no horário de sempre. Espero-te, não permitas que eu viva nesse desespero.
Sempre teu,
Francisco.

Sorri ao terminar de ler. Parecia tão distante um sofrimento tão grande por amor. Um desses amores românticos, fora de uso hoje em dia. Muitos obstáculos, desconhecidos por mim, colocaram-se no meio dessas duas pessoas. Mas sorri também por terem sido tão distintos os motivos de fuga: meu e de Marina.
 
 
ao som de: Cotidiano - Chico Buarque
 
 
 
 

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