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babileta
06 May 2009 @ 09:29 am
Quando eu conheci Felipe, ele tentava se matar. Foram tentativas consecutivas, à minha frente. Primeiro, ele caíra, talvez torcendo para que a overdose lhe alcançasse ao invés de causar aquele desconforto por causa da luz do sol, da movimentação a seu redor. Levantou parte do corpo, assustado. Parecia que tinha dormido por três dias e despertou atrasado. Achou perto de si um espeto de churrasco e, com uma titubeação facilmente superada, tentou enfiá-lo em sua jungular. Tiraram de sua mão sua arma, e ele, meio zonzo, perguntou com voz baixa se não podia nem se matar. Deitou novamente e, cutucando ao lado de seu corpo, encontrou um caco de vidro. Sabíamos no que aquilo culminaria, começamos a gritar quando ele começou a roçar (para usar um verbo ameno) o teco de vidro sobre seu pulso. Um homem abaixou-se e tirou da mão de Felipe aquele objeto cortante. Conversou com ele poucos minutos, retirou-se. Não me lembro bem, mas entre uma e outra tentativa, Felipe levantou-se, enconstou-se no poste e tentou provocar o vômito. Não conseguia. Torcíamos para que colocasse os dedos na garganta para que tentasse se livrar daquele desconforto total. Por fim, enfiou a mão na mochila, com artefatos para confecção de pulseiras, e retirou uma tesoura. Começou a esfregar a lâmina, novamente, em seu pulso. Seu braço, tatuado, esticado. Mais uma vez, houve intervenção.

Uma de suas tatuagens era um "foda-se" em letra cursiva. Pediu desculpas quando nos mostrou, escondeu a mão com um riso de criança sapeca. Um pouco mais acima, outra tatuagem mostrava a palavra "liberdade". Ele tocou a palavra com a outra mão; no fundo, era o que ele procurava. Disse que deus era a natureza. Olhei ao nosso redor. Prédiosprédiosprédios. Deus está longe, Felipe? 

Nos últimos dois dias, não foram poucas as vezes que me perguntei se estaria vivo esse rapaz. De 25 anos, fala coerente, embora lenta, de compulsão por seu próprio suicídio. Um biólogo formado que disse que queria ver sua veia pulando, jorrando sangue.
 
 
babileta
27 April 2008 @ 11:06 pm
5. Domingo, 3h. Av. São João, show dos Mutantes.
Depois de toda multidão e gentefobia, optamos por ver o show dos Mutantes do telão. O show começou, Sérgio Dias e banda no palco e o som não vingou. perguntei ao homem que cuidava da transmissão do telão sobre o som e ele disse que só lá perto. "VAMOS CORRER!!!". A primeira música era instrumental, psicodélica, mutantesística. Deu tempo de corrermos de mãos dadas e nos infiltramos à procura de um bom lugar. Bons lugares existem, nem acreditei! Eram os sonhos se realizando. Aquele sonho patético de 2006, quando conheci Mutantes, de que eles poderiam voltar, fazer um show pra mim e acabar. Eles cantaram minhas músicas favoritas ("Não vá se perder por aí", "top top", "Bat Macumba", "Balada do Louco", "Panis et circenses" (pão e circo, bem propício como reflexão)). Minha voz ficou no show, mas não me incomodou. Cada vez que ela não sai de mim quando tento falar lembro-me de "eu quero que você se top, top, top, uh!". Um homem atrás de mim me contou que Os Mutantes gravaram "sabotagem" ao invés de "sacanagem" por causa da ditadura, mas que agora a gente podia gritar "sacanagem!".

O show acabou e resolvemos que era hora de dormir. Fomos para o gramado (eu, a Brunna e a Calá), a Brunna dormiu e eu fiquei vendo o dia nascer. O gramado estava molhado (não gosto de pensar nos motivos) e preferi ficar dançando o maracatu que tocava no palco de dança, observando os mendigos embrulhados em seus cobertores, deitados em colchões. Os mendigos tinham, naquele momento, mais do que os que têm onde morar. Desejei uma padaria e, sobretudo, um banheiro (tenho preconceito de banheiro químico). Perguntei a um porteiro onde havia uma padaria, ele respondeu, seguimos na direção, mas não chegamos onde ele disse. Paramos no caminho, numa lanchonete simpática. Com o banheiro masculino com um extintor de incêndio no vaso sanitário (intervenção dadaísta?). Tentei dormir na mesa da lanchonete, mas não consegui. Tentei convencer a Calá a ficar pros outros shows, mas não adiantou. Ela foi embora e encontrei a Débora no metrô, sem combinar. Eu e a Brunna nos juntamos ao grupo ETESP da Débora e fomos ao show do Teatro Mágico.

6. Domingo, 9h. Palco São João, show do Teatro Mágico.
Como no ano passado elegi o show do Teatro Mágico o pior da Virada Cultural, tive medo do desse ano. Mas foi muito diferente. Eu já estava um caco e continuava pulando, até a hora em que percebi que ou continuava fortalecendo a panturrilha ou voltava pro metrô a pé e não carregada. Eu não via muita coisa do palco, mas conseguia saber o que acontecia nos malabarismos. Num prédio à minha esquerda, havia um senhor que ficava apreensivo quando a Gabi ou o Rober tinha um movimento difícil a fazer. Assustava-se com o movimento brusco e, ao ver que eles caiam vivos, começava a aplaudir e a pular na sacada do apartamento. Chamava a mulher, que olhava impaciente e voltava ao que imagino que fosse a cozinha do apartamento. Alguns andares acima, pessoas faziam chuva de prata, enfeitando o céu e sujando os apartamentos vizinhos. Um homem apareceu de cueca na varanda. Voltou ao apartamento, colocou uma calça, voltou para ver mais um pouco do show. Voltou ao apartamento, pegou uma câmera de vídeo e começou a filmar a multidão, que, percebendo, começou a dar tchauzinhos. No céu, conviviam urubus, pombas e maritacas. Uma borboleta deu um vôo rasante perto de mim. Um arco-íris formou-se à direita, estranhamente, visto que fazia sol, sem perspectiva de chuva. Um show cheio de detalhes encantadores.

A Brunna foi embora um pouco depois do começo do show. Encontrei um cara da faculdade ali, e como os amigos da Débora diziam que queriam ver Marcelo D2, resovi ir com ele para o Palco das Meninas.


7. Domingo, 11h. Palco das Meninas, Overcoming Trio: Mallu Magalhães, Helio Flanders e Zé Mazzei.
Gostei mais da voz dela no MySpace, no Altas Horas. Ao vivo, Mallu é muito uma menina de 14 anos, tímida, que desafina. Ponto alto: um homem perto de mim, falando que não tinha parado de beber nem um minuto. "Tô muitoo loucoo".

8. Domingo, 12h. Rock República, Cachorro Grande.
Considerando que eu só conheço uma música deles e foi a primeira que eles tocaram, eles tocaram 100% das músicas que eu conheço. Ótimo! "Você não sabe o que perdeu, você não viu o que aconteceu". Na Praça da República, há muitas árvores. Em vários palcos, as árvores tinham potencial para serem camarotes e as pessoas costumavam (houve exceção) subir com habilidade. Mas na República, a árvore era enorme. Tinha cara de centenária... Tinha hora em que pés ficavam sobre os pés da gente. E tinha hora em que a árvore virava pé-de-gente.

9. Domingo, 14h. Rock República, Arnaldo Antunes.

Ele é o máximo, é um dos meus poetas favoritos, tem uma voz inconfudível, e, àquela hora, sentada no gramado da Praça da República, eu soube que "o pulso ainda pulsa, o corpo ainda é pouco".

Pedi uma caneta emprestada a um homem, porque eu sabia que ele tinha uma caneta; eu o vi escrevendo. Escrevi num papelzinho o que sentia vendo aquele monte de gente bêbada, drogada, entrando em coma, gorfando. Pedir caneta a ele talvez tenha mostrado que ele não era o único que recorria aos papéis naquele momento.

[Obrigada, memória virtual]
 
 
sentindo: yay! part 2
ao som de: Balada do Louco - Os Mutantes
 
 
babileta
27 April 2008 @ 06:35 pm
1. Sábado, 18h30. Praça Roosevelt, Espaço Satyros Um.
Que o grupo teatral Satyros é fantástico é inquestionável. Eu sabia antes mesmo de conhecer, pelos elogios que ouvia, pelo que lia no jornal, pela vontade que me despertava. No começo do ano, assisti, deles, à peça "Vestido de Noiva" do Nelson Rodrigues, e fiquei impressionada. Com certeza gostei. Às vésperas da Virada Cultural, o Gui me disse que veríamos uma peça muito boa. Ele já tinha visto e recomendou. "Rosa de Vidro". Não vou comentar a peça, nem tampouco contar sobre seu enredo exceto que me confirmou a força do nome Satyros e a beleza de atuações intensas, compreensíveis com ações e acessórios não convencionais. "Não se deve brincar com a loucura".

Saímos do teatro: eu, meus pensamentos, o Gui, a Calá e a Brunna. Andamos alguns passos para encontrar num bar o grupo de amigos que seria o grupo de referência. Seria, apenas. "O grupo" decidiu ver Gal Costa e eu, que fujo desses tropicalistas com intensidade (esses tropicalistas: Gal, Cae, Bethânia), não fiquei feliz com a escolha. Eu, a Calá e a Brunna levamos o Gui até a Consolação, para ele sumir. Ele sumiu bem, por sinal.

2. Sábado, 21h30. Palco São João, show da Gal Costa.
Fomos para lá, porque o show seguinte era de Zé Ramalho. Esperaríamos para encontrar "O grupo" após o fim do show. As canções dela (não compostas por ela) tinham refrões que marcavam e começamos a cantar "você me dá sorte na vida, meu amor", por causa da propaganda de cartão de crédito (ah!, nada como a publicidade que atinge o subconsciente musical!). Ela resolveu cantar de Adoniran Barbosa "Trem das Onze". Mas com sono. Ela poderia ter mais ânimo na hora de seguir os tempos da música, ao invés de prolongá-los. Os paulistas apressados cantando como se precisassem do trem pro Jaçanã e a cantora ainda dizendo que não pode se prolongar naquele encontro. Cantou em seguida, de Caetano Veloso, "Sampa". O clichê de estar na São João com a Ipiranga. Sem dizer que essa música só fala sobre coisas feias da cidade e a Virada Cultural desconfigura essa visão, mesmo que haja ainda coisas feias, São paulo é outra nessa ocasião.

Fomos para o meio da multidão procurar "O grupo", achamo-lo (he, que feio), fomos muito empurrados, e por motivos de força maior (invenção argumentativa mais idiota do mundo!), faltando dois minutos pra começar o show, saímos lá da frente pra irmos para trás, tentar evitar a dança do maxixe que era aquele monte de gente junta e anti-ética.

3. Domingo, 0h. Palco São João, show do Zé Ramalho.
Não resolveu muito fugir da muvuca, pois ela estava em todos os lugares, e saímos antes da música mais esperada. Quando estávamos longe o suficiente, Zé Ramalho começou a cantar "e-ô-ô, vida de ga-a-do, povo marcado, ê, povo feliz". O som reverberava pela esquina da São João e Aurora e fomos cantando. O nós oculto na frase anterior inclui todos do grupo e todas as pessoas ali. Todos andando, à la abertura de "O rei do gado", bovinamente, e cantando em uníssono. Virada Cultural é, por esses momentos, um estado de espírito.

Comprar comidas em armazéns para jantarmos/ceiarmos sentados na Praça Ramos de Azevedo, naquele gramadinho maroto.

4. Domingo, entre 1h e 2h15. Praça Ramos de Azevedo (vulgo gramado na frente do Municipal).
Um piquenique improvisado, com fandangos e guaraná. Satisfizemo-nos e eu, a Brunna e a Calá deitamos no gramado, olhando para a árvore à nossa frente. Folhas caíam, a lua sorrindo para nós, um homem malabarizando num fio, bastante conversa. Coloquei meu celular para despertar às 2h15, para voltarmos ao palco da São João, ver Mutantes. 2h15 o celular tocou, despedimo-nos d'o grupo".

[escrever 24 horas aqui transformaria o post num livro.]  
 
 
sentindo: yay!
 
 
 
 

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