Quando eu conheci Felipe, ele tentava se matar. Foram tentativas consecutivas, à minha frente. Primeiro, ele caíra, talvez torcendo para que a overdose lhe alcançasse ao invés de causar aquele desconforto por causa da luz do sol, da movimentação a seu redor. Levantou parte do corpo, assustado. Parecia que tinha dormido por três dias e despertou atrasado. Achou perto de si um espeto de churrasco e, com uma titubeação facilmente superada, tentou enfiá-lo em sua jungular. Tiraram de sua mão sua arma, e ele, meio zonzo, perguntou com voz baixa se não podia nem se matar. Deitou novamente e, cutucando ao lado de seu corpo, encontrou um caco de vidro. Sabíamos no que aquilo culminaria, começamos a gritar quando ele começou a roçar (para usar um verbo ameno) o teco de vidro sobre seu pulso. Um homem abaixou-se e tirou da mão de Felipe aquele objeto cortante. Conversou com ele poucos minutos, retirou-se. Não me lembro bem, mas entre uma e outra tentativa, Felipe levantou-se, enconstou-se no poste e tentou provocar o vômito. Não conseguia. Torcíamos para que colocasse os dedos na garganta para que tentasse se livrar daquele desconforto total. Por fim, enfiou a mão na mochila, com artefatos para confecção de pulseiras, e retirou uma tesoura. Começou a esfregar a lâmina, novamente, em seu pulso. Seu braço, tatuado, esticado. Mais uma vez, houve intervenção.
Uma de suas tatuagens era um "foda-se" em letra cursiva. Pediu desculpas quando nos mostrou, escondeu a mão com um riso de criança sapeca. Um pouco mais acima, outra tatuagem mostrava a palavra "liberdade". Ele tocou a palavra com a outra mão; no fundo, era o que ele procurava. Disse que deus era a natureza. Olhei ao nosso redor. Prédiosprédiosprédios. Deus está longe, Felipe?
Nos últimos dois dias, não foram poucas as vezes que me perguntei se estaria vivo esse rapaz. De 25 anos, fala coerente, embora lenta, de compulsão por seu próprio suicídio. Um biólogo formado que disse que queria ver sua veia pulando, jorrando sangue.
Uma de suas tatuagens era um "foda-se" em letra cursiva. Pediu desculpas quando nos mostrou, escondeu a mão com um riso de criança sapeca. Um pouco mais acima, outra tatuagem mostrava a palavra "liberdade". Ele tocou a palavra com a outra mão; no fundo, era o que ele procurava. Disse que deus era a natureza. Olhei ao nosso redor. Prédiosprédiosprédios. Deus está longe, Felipe?
Nos últimos dois dias, não foram poucas as vezes que me perguntei se estaria vivo esse rapaz. De 25 anos, fala coerente, embora lenta, de compulsão por seu próprio suicídio. Um biólogo formado que disse que queria ver sua veia pulando, jorrando sangue.
e a sua bicicleta?


