miúda

(no subject)

disseram que não se volta para onde se foi muito feliz
apenas não se volta, porque decreta-se a morte de algo
de algo que era felicidade e não quer ser outra coisa
tenho pensado em todos os lugares onde fui muito feliz
todos, cada um deles, absolutamente, um por um

e me pergunto se volto um dia
mas às vezes eu até já voltei
às vezes eu andava por ruas e
as memórias me atropelavam
me esmagavam enquanto eu sorria
e dizia "aqui fui muito feliz
daquela outra vez" submersa que
estava na questão mais velha da
filosofia: o rio é o mesmo, mas
não posso cruzá-lo duas vezes

disseram que não se volta para onde se foi muito feliz
e eu me esforço para classificar meus níveis de alegria
e eu me aflijo porque não tenho escala para tanto
fui feliz naquelas ladeiras que me tiravam o ar,
também no alto da plana montanha onde se via o mar

é provável que eu nunca volte
porque a vida parece curta
e pode ser que me entristeça
mas eu lembro da lista de cidades
e províncias e pueblos e rios e
acidentes geográficos para onde
supostamente nunca poderia voltar
e sorrio pois a vida pode ser curta
mas o mundo segue sendo vasto.
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(no subject)

escrevi manual sobre tudo
sobre como ser eu quando
eu não estiver por perto
escrevi manuais sobre cópias
as digitais e analógicas
escrevi manual sobre minhocas
como alimentá-las mesmo
que possam passar meses
sem comer coisas novas
manual sobre o que sei
há muito pouco tempo
e manual sobre quem sou
tudo tem objetivo introdução
desenvolvimento finalização
algum método é importante
manuais que ensinam
já na escrita como
se tornar substituível
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(no subject)

"Ela colhia margaridas
quando eu passei. As margaridas eram
os corações de seus namorados,
que depois se transformavam em ostras
e ela engolia em grupos de dez."

Registro Civil. Carlos Drummond de Andrade
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(no subject)

no sé si te acuerda de la historieta
que un día te escribí respecto a la
primera vez que me enamoré.
en aquel momento yo me enfermé
yo me acosté en el sofá y casi lloré
y por fín me pregunté que hacia.
en dos semanas yo maté mi amor
en una carta tan estúpida cuanto yo.
despues, sufrí un poco más hasta
que comprendí que maté mi amor.

porque ahora vivo otra vez el dilema
ya se eleva la termperatura corporal
ya no sé por qué tanto por qué yo
por que ahora por que no despues
ya no sé como decir porque ya no
tengo las ganas de ser estúpida
diez años despues del primer amor.
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(no subject)

um pequeno corpo estirado no canteiro
penso em como dorme calmo o gato
até que vejo que dorme um sono eterno
(há dor em suas feições, um susto talvez)
dou poucos passos _ vinte-e-sete _
encontro um anúncio no vidro da loja
e ele evoca a perda de um gato
siamês, como aquele exposto ao lado,
e acho que se trata do mesmo
todos dia questiono se deveria contar
sobre o pouco que sei do bicho
ou se devo deixar para lá porque afinal
não sei se os dois são o mesmo
e penso que curioso que a própria raça
seja chamada de siamesa.
dou mais alguns passos _ doze_
e um cheiro de cocô de cães me enjoa
só uns poucos passos _ cinco_
e me pergunto quantos ratos passeiam ali
a essa altura ainda não decidi sobre
contar a respeito do gato morto
(teria o corpo sido recolhido com o lixo?)

mas eu esqueço tudo quando viro a esquina
e lembro da minha própria vida
enquanto desvio da minha própria morte.
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um

Não é o passado que pesa
mas a carga do impossível
Do que por aqui se passa
E o mundo tão impassível
O passado é que amanhã
vou andar no mato e também
comprar xampu - o mesmo
que até poucos meses nem
eu nem tu conhecíamos.
O passado é que amanhã
como um sorvete de pistache
- e olha que tá frio! -
mas como sozinha, bem como
você cantarola uma ou outra
música também sozinha,
ainda que lhe acompanhem
outras vozes nessas vezes.
O passado é que o Romantismo
venceu enquanto visão de mundo
E o corvo te fala "nunca mais"
- o que a gente sabe que é irreal -
e o outono nos recheia com seus
orvalhos que escorrem de manhã.
Mesmo que seja primavera,
parece que ainda é outono em nós.
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El cuerpo del hombre me espera

Mientras camino por los senderos
me acuerdo que en el nido de amor
el cuerpo del hombre me espera
Su cuerpo es un largo teritorio
y todos los cuerpos lo son
Todos los cuerpos se dominan
y encuentran resistencia si libres
El cuerpo es la resistencia misma

Sé que el cuerpo del hombre me espera.

Que sé yo de lo que es vivir en la guerra
Pero sé lo que es transpasar la frontera
Camino con las manos por su espacio
Y me acuerdo ahora que en nuestra casa
el cuerpo del hombre me espera.
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